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Escrita durante el período de residencia en Brasil (1980-1990) su comedia musical Gardel, uma lembrança en 1987 tiene una primera versión en portugués. La obra se estrenó en agosto de ese mismo año en Río de Janeiro. Luego surge la versión al italiano, con la traducción de Angelo Morino y que publicó por Einaudi en 1993 como Tango delle ore piccole. Otra en español estuvo a su cargo, cuya tarea en conjunto con Silvia Gambaroto durante 1994 y 1995, y que se publicó en Argentina en 1997 en una edición prologada por Julia Romero, que incluía los prólogos de Puig y de Morino.
Con respecto a la versión italiana, la incorporación de las modificaciones a la obra fueron enviadas por el mismo Puig a Marco Mattolini, quien se encargó de la puesta en escena.
La edición crítica del texto, teniendo en cuenta el idioma original en que está escrito, el español de algunos tangos que se mantienen en esa versión y el italiano de los agregados fue preparada por Silvia Gambarotto. Esta estudiosa y Angelo Morino son además, catedráticos e investigadores del Departamento de Ciencias literarias y Filológicas de la Universidad de Turín, Italia.
Primer Acto
ABERTURA. Música de tango ("Don Juan" seguido de "El entrerriano"). Pano preto, entram pela esquerda dançando MADAME YVETTE (velha Madame) e SANTIAGO (velho rufião) seguem eles [1] seis prostitutas dançando também o tango, mas em fila feito Rockettes. Roupas de 1915. Parando de dançar.
ELE Esse tango, meu carinho, é quem [2] a lei do amor faz, eu avanço direitinho e você só vai prá traz [3] .
M.YVETTE A lei do amor ensina que o prazer da mulher é navegar à deriva, nos braços... daquele que lhe [4] quiser. [5] (voltam a dançar)
PROSTITUTA I Mil novecentos e quinze Tango! proibido dançar e prá mulher está proibido avançar senão prá trás.
ELE (parando de dançar)
Essa moça fala a toa mas eu vou lhe ensinar que a emoção mais profunda é deixar-se dominar. (pega a PROSTITUTA I e dançam)
PROSTITUTA II É ele que [6] marca o passo ela... recua sem olhar a vertigem do perigo faz ela se arrepiar.
PROSTITUTA III Eu também quero uma prova dessa profunda emoção o tango é dança nova mas velha é a exploração.
ELE (parando de dançar) Aqui estou prá servi-la, quem fala em exploração? você trabalha tranqüila que eu faço a administração. (Dança com PROSTITUTA II)
M. YVETTE Ele administra o dinheiro, e administra o amor, esse é o homen que eu quero, meu ídolo e meu senhor.
PROSTITUTA IV Tudo bem, dancemos mesmo, eu recuo sem olhar, mas o que é que acontece se eu paro de trabalhar?
ELE (para de dançar) Nesse caso, minha flor, eu vou te administrar... fome, sim, daquela pior e medo, sim, de arrepiar.
PROSTITUTA V Eu já estou arrepiada, [7] que é o ponto principal, pena que o tango é proibido por ordem presidencial.
ELE (volta a dançar com MADAME YVETTE)
Esse tango, meu carinho, é quem [8] a lei do amor faz, eu avanço direitinho, e você só vai prá trás.
M.YVETTE e TODAS A lei do amor ensina
que o prazer da mulher, é navegar à deriva, nos braços... daquele que a quiser! (saem dançando pela direita)
Fim da ABERTURA Levanta-se o pano.
CENÁRIO. Sala de bordel de categoria, porém não muito sofisticado. Penumbra. A luz vem do fundo, de onde se ouve [9] ainda os sons do tango, insinuando que a dança continua. Entram, sub-repticiamente dois jovens -Carlos e Aurélio- com seus violões.
AURÉLIO Não acenda a luz, que vão nos chutar daqui.
CARLOS Cale a boca e vê se encontra alguma comida. Você tem faro de bicho.
AURÉLIO (procurando) É a última vez que deixo por sua conta acertar o nosso cachê. Daqui por diante eu sou o teu empresário.
CARLOS (abrindo e fechando gavetas) Nessa casa ninguém come [10] nada.
AURÉLIO O comércio não dá tempo a elas. [11]
CARLOS Mas essas mulheres estão bem cheinhas. De ar é que elas não vivem.
AURÉLIO Vou direto [12] prá cozinha. Você fica aqui. E se vier alguém, me avisa.
CARLOS Se manda rápido. Estou morrendo de fome.
AURÉLIO sai pela esquerda. Volta rápido.
AURÉLIO Tem cachorro lá. Por sorte não acordou.
CARLOS Que azar! Também, vou te contar. Que grande idéia essa de minha mãe de vir para a Argentina! Porra desse país. [13]
AURÉLIO Que conversa [14] é essa! Aqui não falta comida prá ninguém.
CARLOS Só prá nós, naõ é?
AURÉLIO (descobrindo um prato de frutas em cima de um móvel alto) Nem tanto, olha isso.
CARLOS (tomando uma fruta pequena) É. Migalhas não faltam. (Pequena pausa) Mas (batendo no peito) alguém que saiba apreciar o que é uma boa voz, isso sim, está faltando.
AURÉLIO (comendo) Volta prá terra de sua mãe, então. Vai prá França. Lá tem uma beleza de guerra. Entre uma bomba e a outra [15] , que vem logo depois, todo mundo vai apreciar muito a tua voz. Na Argentina pelo menos temos a paz [16] .
CARLOS Deixa alguma coisa prá mim, companheiro.
Ouvem-se passos e vozes que se aproximam. CARLOS e AURÉLIO se escondem. Entram o homem e a mulher -SANTIAGO e MADAME YVETTE-.
SANTIAGO (de mau humor) Não me faças [17] repetir uma ordem na frente dos outros. Você está afogada em vinho.
M.YVETTE (um tanto bêbada, mas em tom irônico) Foi o tango. Dançar com você me sobe à cabeça que nem o álcool.
SANTIAGO Escuta. Essas são as ordens. Veem [18] de cima e são bem precisas. O Chefe não gostou nada da idéia de tirar essa mulher doente daqui. Com essa peste, mas [19] do que contagiosa.
M.YVETTE Mas a polaca vai morrer. A tísica é uma doença que mata.
SANTIAGO Prá mim tanto faz. E fale com a Nádia [20] que não me amole mais com essa estória de tirar a amiga doente daqui. Não quer morrer no bordel, mas gostava de viver aqui. [21]
M.YVETTE A Nádia prometeu tirar ela daqui sem ninguém perceber. A outra quer morrer lá fora, ter a sepultura em terra abençoada.
SANTIAGO O Chefe já ordenou, e eu com ele não discuto.
M.YVETTE Mas você é homem, não é? E homem não tem medo de homem.
SANTIAGO É que o Chefe e eu pensamos sempre da mesma maneira. Nunca temos diferença de opinião. (Em tom violento). Compreendeu?
M.YVETTE (submissa) Compreendi. (Pequena pausa) E o cantor? Não devo mesmo pagar nada a ele?
SANTIAGO Já disse que não. O pessoal aqui não gosta de tango cantado. Isso é uma novidade boba prá tirar grana dos otários. Tango cantado... quem já ouviu falar nisso?
M.YVETTE Me falaram que cantava bem. [22] Por isso deixei ele entrar quando bateu na porta.
SANTIAGO Mas já viu que a freguesia não deixou ele cantar. Esses bêbados só querem passar a mão legal nas polacas [23] , dançando. (Pausa) E agora me sirva um senhor bife. Estou com fome.
M.YVETTE A essa hora?
SANTIAGO (saindo em direção à cozinha) A essa hora! Você agora só sabe discutir. Não se esqueça [24] que [25] fui eu que te escolhi para dirigir essa casa. Ou você quer voltar para onde estava? [26]
M.YVETTE (entre tímida e irônica) É o efeito do tango que está passando. Mas deixa prá lá. [27] Nós dois [28] nunca temos diferença de opinião. (Saem).
AURÉLIO e CARLOS saindo do esconderijo.
AURÉLIO Tinha bife lá! Só que cru.
CARLOS Mas agora vão fritar. Daqui a pouco vamos sentir o cheirinho.
AURÉLIO Fruta é mais saudável. (Pausa).
CARLOS Você ouviu o que diziam da moça? Será que é uma daquelas polacas que os jornais falaram?
AURÉLIO Não leio notícia policial. Só política internacional.
CARLOS Você não sabe ler, isso sim.
AURÉLIO Não, um belo dia leio a notícia que pegaram você, e aí vou ter que levar cigarros na cadeia.
CARLOS Sem brincadeira. Parece que chegaram muitas garotas de lá, enganadas. [29] Chegavam até com contrato de casamento. Um cara ia lá arrumava tudo na Europa, onde tinha muita moça no campo, refugiadas, sei lá, na Rússia. E aqui, o que tinham era esse trabalho.
AURÉLIO E daí?
CARLOS Daí é que quando elas chegavam, a polícia entregava elas para esses tipos. Tudo combinado.
Ouvem-se vozes de mulheres aproximando [30] . A música que havia ao fundo -na cena do baile- vai abaixando mais ainda o volume. CARLOS e AURÉLIO voltam a se esconder.
PROSTITUTA I Adoro o tango. Os sujeitos cansam logo e vão prá casa cedo.
PROSTITUTA II (se atira logo sobre um sofá) Aniuska, você acha cedo mesmo? Eu estou arrebentada.
PROSTITUTA III É que você dá muita conversa prá fregues. Falar mentiras cansa mais que tudo.
PROSTITUTA II Katiuska bela. Essa é a minha especialidade. Sou a romântica da casa.
PROSTITUTA III Como pode te sair algo que não seja um palavrão para esses infelizes. Argentinos não merecem nada. (CARLOS tem um movimento de reação. AURÉLIO o contém).
PROSTITUTA I Se vai falar, fala a verdade. Homem nenhum merece nada.
PROSTITUTA III O que está falando, sua metida. Você só conhece macho argentino. Na nossa terra a vida foi bem outra.
PROSTITUTA II (á PROSTITUTA I) Deixa a Katiuska dizer besteira. O tango lhe faz sempre mal, como esse vinho daqui. (À PROSTITUTA II) Assim como tudo o que é daqui a nós todas...
PROSTITUTA I Eu não conheço só argentino. Aqui tem passado muito oficial da marinha do rei tal e da porra dos reis todos. Quanto mais escalão eles têm, pior [31] ficam. Velho dá mais trabalho. Homem não presta, mas paga.
PROSTITUTA III Escuta Anya. Argentino é o pior mesmo. São metidos a mandões como todos os outros e prá completar o negócio te fazem dançar o tango, correndo prá trás feito carangueijo sem jeito.
PROSTITUTA IV Às vezes eu acho gostoso, isso de ficar quase sentada no chão.
PROSTITUTA II (á PROSTITUTA IV) A Katiuska tem razão. Argentino é metido a mandar. Gosta do tango porque te leva assim prá trás, sem você saber onde vai cair no fim. Não gosta de dançar, nem de cantar.
CARLOS (aparecendo) Mentira, companheira.
PROSTITUTA V E você, quem é?
PROSTITUTA III Vai dando o fora. Essa é nossa hora de descanso, moço [32] .
CARLOS Você não tem direito de falar assim. (Pausa. Buscando um argumento). Aqui pelo menos não falta comida prá ninguém. Voltem prá terra de vocês, se não estão gostando daqui. Lá tem uma beleza de guerra, entre uma bomba e a outra [33] que vem logo depois, todo mundo vai cantar direitinho.
PROSTITUTA I Já manjei [34] . É o cantor que a Madame Yvette não deixou pegar no violão.
PROSTITUTA II Coitado...
PROSTITUTA III Se canta, então não é argentino.
CARLOS Sou. E canto também...
AURÉLIO (aparecendo) Só que não prá vocês. Ele só canta se alguém pagar.
PROSTITUTA II Olha isso. Ele tem empresário, como nós, meninas.
CARLOS (a AURÉLIO) Mas acontece que estou com vontade de cantar.
PROSTITUTA I Taí garoto, eu fiquei curiosa. O que você canta?
CARLOS Tango.
PROSTITUTA III Nossa Senhora...
PROSTITUTA V E o empresário dança comigo. (Rindo). Mas eu só aceito se me deixar ir prá frente. [35]
CARLOS Nada disso, o empresário vai é pegar no violão. [36] (A AURÉLIO). Vamos lá. Començam a tocar.
CARLOS (só fala no começo) Você pidiu prá min [37] cantar, eu me recuso, tango só dá prá dançar... Não vou cantar, eu não vou não, homem não canta, argentino ainda mais. (Cantando "Si soy así")
Você pidiu prá min cantar eu me recuso, tango só dá prá dançar. Não vou cantar, eu não vou não, homem não canta, argentino ainda mais. O argentino cuida sua fama [38] de macho ele escuta o coração.
e jamais na vida eu acho
O coração, só tem que ser, aquela bomba que o sangue faz mexer. Nós os homens dessa terra, garantimos a vocês, maus tratos, chicotada e porrada,
cassetada [39] , punhalada, tapa, soco e ponta pé.
E o que é isso de cantar que nem um galo? Nem galo nem passarinho nem coruja quero ser, me respeite como homem prá esse papo começar. [40]
As PROSTITUTAS batem palmas.Durante a canção NÁDIA aparece no alto de uma escada com um freguês, fica escutando o cantor, manda embora o freguês, se mostra impressionada, mas toma uma máscara zombeteiramente hostil.
NÁDIA A gente trabalha [41] e os ricos se divertem.
PROSTITUTA I Nádia Alexandrova, não brinque, você é rica também.
PROSTITUTA II Pelo menos como nós. (Pausa). Olha menina, ele é argentino e assim mesmo canta.
NÁDIA Canta, sim, mas prá frente, como o homem dança o tango. Na vida as vezes canta-se... recuando. [42]
CARLOS Não comprendi bem. [43]
NÁDIA Estou falando [44] comigo, eu me compreendo e chega.
CARLOS (um tanto pensativo) Tenho outras canções, bem mais tristes. Até uma que fala [45] da garota que acredita num rapaz que depois a abandona e ela acaba caindo na vida.
NÁDIA É verdade! (Cáustica) Tem garota que cai porque um desgraçado dá nela um empurrão. Mas, moço [46] , tem muitas (olha as companheiras) que gostam de fazer o que estão fazendo, e não caíram, só pularam de alguma cama prá essa onde elas... dormem agora.
CARLOS Quer escutar esse tango?
NÁDIA Não. (tirando dinheiro do roupão) E aqui está. Nós aqui gostamos de pagar e de sermos pagas.
CARLOS Não, obrigado. [47] E também, prá essa nota eu não tenho troco.
NÁDIA Eu nunca dou troco, nisso somos iguais. Eu sempre fico com tudo.
AURÉLIO Carlos, vamos já.
CARLOS Um momento só. (À NÁDIA) E ninguém reclama?
PROSTITUTA III Ela diz que não...
PROSTITUTA V De mim reclamam. Até os vinténs.
NÁDIA Escuta. Tem muitas maneiras de dar um troco. Mas tem uma que é a pior.
CARLOS Fala.
NÁDIA (Pega um pandeiro russo pendurado como ornamento na parede, em meio a outros). Na nossa terra tinha muita cigana. Uma vez uma me disse: "atenção, não aceite nunca nota alta demais. Ela vai te trazer azar, porque esse sujeito [48] espera o troco". [49] A cigana tinha razão, um dia apareceu um sujeito com aquela nota, alta demais. (Pausa. Dá de ombros) Paciência...
CARLOS Ainda não falou qual é o pior... dos trocos.
NÁDIA Às vezes aquela nota alta demais está esperando troco de carinho. Mas isso não se compra... e menos ainda se dá... de troco.
PROSTITUTA V Nádia, deixa ele cantar mais. Nós estamos gostando.
CARLOS (a PROSTITUTA V) Ela não quer escutar o tango da moça abandonada. Já manjei [50] .
NÁDIA Garoto. Essa moça não está aqui. Você errou. [51] Aqui ela não mora. Aqui todas chegamos porque isso queríamos. E que vida melhor do que essa! Acordar tarde, dormir tarde, e só pensar no prazer.
CARLOS O prazer do cara que paga.
NÁDIA Aí é que você se engana. Nós aqui nos divertimos á beça. (Com o pandeiro na mão). Escuta aqui.
Fundo de música cigana russa.
(Falando) Pelas ruas de Buenos Aires, se fala ciciando de uma casa es-pe-ci-al, especiais são seus fregueses, especiais os seus serviços, especial satisfação. Mas atenção, senhores, lá no final, contem certo quantos pesos vocês dão. (Canta)
Pelas ruas de Buenos Aires se fala ciciando de uma casa es-pe-ci-al, especiais são seus fregueses, especiais os seus serviços, especial satisfação.
Mas atenção, senhores, lá no final, contem certo quantos pesos vocês dão...
Troco! o senhor pede troco?
espera uma nota? moedas?
ou espera amor?
Troco! o senhor não se engana?
Comprou só dois beijos, carinhos... uns trés.
Também tinha direito a solenes promessas de fidelidade... que já lhe fiz
Mas olha... o que o senhor queria é que isso tudo... fosse real.
(Falado)
Coitado! Coitado do senhor!
(Cantado)
Chega! São todas mentiras! essa ilusão... não adianta mais... Puxa, até sinto inveja, que o senhor consiga se enganar...
Terminada a canção todos riem e aplaudem.